terça-feira, 28 de junho de 2011

Enredo para um tema




Ele me amava, mas não tinha dote,
só os cabelos pretíssimos e uma beleza
de príncipe de estórias encantadas.
Não tem importância, falou a meu pai,
se é só por isto, espere.
Foi-se com uma bandeira
e ajuntou ouro pra me comprar três vezes.
Na volta me achou casada com D. Cristóvão.
Estimo que sejam felizes, disse.
O melhor do amor é sua memória, disse meu pai.
Demoraste tanto, que... disse D. Cristóvão.
Só eu não disse nada,
nem antes, nem depois.

Adélia Prado

terça-feira, 21 de junho de 2011

No place to fall



If I had no place to fall

and I needed to
could I count on you
to lay me down?

(...)

Skies full of silver and gold
try to hide the sun
but it can't be done
least not for long

And if we help each other grow
while the light of day
smiles down our way
then we can't go wrong

Time, she's a fast old train
she's here then she's gone
and she won't come again
won't you take my hand

If I had no place to fall
and I needed to
could I count on you
to lay me down?

Townes Van Zandt

sexta-feira, 17 de junho de 2011

DIÁLOGO ÍNTIMO SOBRE O VALOR PEDAGÓGICO DA HISTÓRIA

                                     Fernando Brito, Tus pasos se perdieron con el paisaje
                                               

Lês, dizes-me, um livro
muito interessante
sobre os grandes generais romanos,
“os homens que construíram
o império”.
Depois citas Apiano
e um episódio em particular
das suas Guerras hispânicas,
esse em que o historiador
refere como Públio Cornélio Cipião,
dito o Africano,
sem dúvida
um extraordinário estratega,
durante o cerco
de Numância
deu ordem aos seus legionários
para que cortassem
as mãos de 400 prisioneiros
celtiberos.
Tratou-se, pelo que pudeste
compreender,
de um acto militar de intimidação
contra todos os que se atreviam
a desafiar o longo
braço imperial.
O que não és capaz de esclarecer
é qual o destino dado
a cada uma dessas
800 mãos.
Terão estrumado a terra ibérica,
alimentado os cães sarnentos
dos centuriões,
ou, cravadas em estacas
e expostas nas encruzilhadas,
como as cabeças
dos bárbaros vencidos,
funcionado como lastimosos
sinais de tráfego
nas bermas dos caminhos
que seguiam invariavelmente
em direcção a Roma?
Sem resposta tua
às minhas perguntas,
resta-me conceber na imaginação
o acontecido,
consciente todavia
de que imaginar
é um acto arriscado
- não mostra a História
que muitos,
no correr dos séculos,
ficaram sem a cabeça
porque, impertinentes, o ousaram?
Ainda assim, ironizas,
não tão perigoso como cercar
ou defender de um cerco
uma cidade,
não te parece?
Agora fico eu em silêncio
enquanto tu,
um meio sorriso ainda sobre os lábios,
viras a página e o rosto,
no preciso momento em que as legiões
de Públio Cornélio Cipião,
o Africano,
arrasam Numância,
no ano de 134 a. C.
Mas não podia ser outra a cidade,
e a data também?,
pergunto por fim.

Osvaldo Manuel Silvestre

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Flat 33 A

Le desérteur



Monsieur le Président

Je vous fais une lettre
Que vous lirez peut-être
Si vous avez le temps
Je viens de recevoir
Mes papiers militaires
Pour partir à la guerre
Avant mercredi soir
Monsieur le Président
Je ne veux pas la faire
Je ne suis pas sur terre
Pour tuer des pauvres gens
C'est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous dise
Ma décision est prise
Je m'en vais déserter

Depuis que je suis né

J'ai vu mourir mon père
J'ai vu partir mes frères
Et pleurer mes enfants
Ma mère a tant souffert
Elle est dedans sa tombe
Et se moque des bombes
Et se moque des vers
Quand j'étais prisonnier
On m'a volé ma femme
On m'a volé mon âme
Et tout mon cher passé
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
J'irai sur les chemins

Je mendierai ma vie

Sur les routes de France
De Bretagne en Provence
Et je dirai aux gens:
Refusez d'obéir
Refusez de la faire
N'allez pas à la guerre
Refusez de partir
S'il faut donner son sang
Allez donner le vôtre
Vous êtes bon apôtre
Monsieur le Président
Si vous me poursuivez
Prévenez vos gendarmes
Que je n'aurai pas d'armes
Et qu'ils pourront tirer 

Boris Vian

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Suponha...


«Suponha que tinha acabado de acordar numa cama de hospital. Primeiro, apercebia-se de que tinha sofrido uma perda considerável de memória. Olhando para baixo, via que estava enfaixado dos pés à cabeça. Não se recordava do seu nome nem do seu sexo e raça – também não conseguia descobri-los através das ligaduras (a etiqueta no pulso enfaixado revelava apenas um número). Os factos acerca da família, ocupação, classe, capacidade, competência, etc., estão completamente perdidos. Recorda-se de algumas teorias gerais aprendidas, em tempos, nas aulas de economia e sociologia, mas de nada se lembra das aulas de história. Na verdade, nem sequer sabe em que século está. Nessa altura, um homem de bata branca entra na enfermaria. “Bom dia”, diz ele. “Sou o professor John Rawls. Amanhã a sua memória regressará, as ligaduras ser-lhe-ão retiradas e poderá partir. Portanto, não temos muito tempo. O que precisamos que nos diga é como gostaria que a sociedade fosse concebida, tendo sempre em mente que, a partir de amanhã, viverá na sociedade que tiver escolhido. Embora não saiba quais são os seus verdadeiros interesses, posso dizer-lhe que precisa de tantos bens primários quanto possível (…). Regressarei, ao fim da tarde, para saber o que decidiu”. Nestas circunstâncias o que seria racional escolher?»

Jonathan Wolff

terça-feira, 14 de junho de 2011

Se tivesse carta.


Se tivesse carta, faria sentido comprar um automóvel; poderia, então, meter o sofrimento na mala e abandoná-lo num outeiro.

Miguel Martins

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Neste dia cinzento



Neste dia cinzento
procuro um verso
e não encontro
não tem importância

Adilia  Lopes

terça-feira, 7 de junho de 2011

O meu tempo



Agora as pessoas
não sabem morrer
estar doentes
sofrer
ter prazer
tocar-se
dantes também não
(Ó mais nu
e branco dos homens)

Adília Lopes

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Azul




Um dia hás-de nascer fora de ti 
num sobressalto novo deste céu
onde se afoga a luz da madrugada
já sem nenhuma estrela que te aceite
a translúcida febre das palavras.
Um dia hás-de romper os cegos nós
do monstro a que chamavas coração,
o antigo labirinto que te ilude
a inocente máquina do corpo
na escuridão dos passos desastrados
em busca de um azul que te conheça.
Um dia hás-de falar sem dizer nada
que o mundo compreenda e será teu
esse primeiro azul da madrugada.

Fernando Pinto Do Amaral