terça-feira, 30 de agosto de 2011
The past is a foreign country
Quem és tu que danças descalço na noite escura?
Porque é que te deleitas com o cheiro e o sabor do sangue, dos corpos esventrados e
inertes?
Porque é que cantas sobre o silêncio tumular dos cemitérios que criaste?
Ouves os gemidos que o vento traz? No sussurro das árvores, na fonte onde corre
um fio de água, no lago onde a Lua se reflecte, ecoam gritos distantes...
Ouves?
Caminhas sobre fogo. Incendeias as searas. Deitas-te no chão com um sorriso de
criança, embalada pelo crepitar das plantas que ardem.
Olhas para o céu com o olhar vazio e perguntas porquê vezes sem conta, até caíres
de exaustão.
Cruzas-te com rostos. Pairas sobre o mundo. Feres com a tua espada.
Nunca paras. Nunca te deténs. Nunca olhas para trás, só vês em frente um caminho
interminável.
Quem és tu que, no crepúsculo de chumbo baço, uivas de dor?
"Nunca te deixarei morrer David Crockett"
Miguel Sousa Tavares
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Duas teses marxistas
Foi há muito tempo
e já poucos têm memória disso
- crianças sujas e desnutridas,
mães que cerziam calças rotas,
pais alcoolizados, no desemprego.
Romancistas ingleses escreveram
sobre isso e mesmo sociólogos alemães.
Depois das guerras chegou a social-
-democracia, o estado – providência,
a gula dos mercados e a especulação financeira.
A vida continua difícil, mas alguns
têm esperança, como sempre
tiveram – outros, nem por isso.
2. A queda tendencial da taxa de juro
A história não tem fim
à vista – se Judite sangra
um pescoço, legiões de anjos
desfilam na Praça da Paz
Celestial. Há, algures no Texas,
entre almas e votos, um negócio
lucrativo. Há a não ingerência
nos assuntos internos e aviões
que bombardeiam líbios. Há
o petróleo, o gasóleo, o gás natural.
A subida tendencial do nível
de dióxido de carbono, o efeito
de estufa das ganadarias. Alguém,
à chuva, que tenta perceber
o que é a felicidade e se existe.
domingo, 21 de agosto de 2011
A Poesia Vai Acabar
A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —
Manuel António Pina
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Natureza morta com um louva-a- deus
Foi o último hóspede a sentar-se
no topo da mesa, já depois do martírio.
As asas magníficas haviam-lhe sido quebradas
por algum vento. Perdera o rumo
sobre a película cintilante de água
no riacho parado. Tal como poisou
junto de nós, com o belo corpo magro
arquejante, lembrava, ainda segundo o seu nome,
um santo mártir. Enquanto meditávamos,
a morte sobreveio, e a pequena criatura,
que viera partilhar a nossa mesa,
depois de ter sido banida das águas
foi banida da terra. Alguém pegou
no volúvel alado corpo morto
abandonado sem nexo na brancura da toalha
- que maculava -
e o atirou para qualquer arbusto raro
que o poeta ainda pôde fotografar.
FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Opacidades
Cansaço de alimentar a vida
e os instintos,
de passarem vultos que me não vêem
porque é demasiado cedo
ou tarde
ou longe
ou são opacos os dias
Noite medieval
dogmas, guerras morais
escárnio e martírios
Dormem animais na erva alta
da primavera
e há tanta gente triste
como as luzes solitárias
nos campos
José Carlos Teixeira |
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Chuva
Chuva, caindo tão mansa,
Na paisagem do momento,
Trazes mais esta lembrança
De profundo isolamento.
Chuva, caindo em silêncio
Na tarde, sem claridade...
A meu sonhar d'hoje, vence-o
Uma infinita saudade.
Chuva, caindo tão mansa,
Em branda serenidade.
Hoje minh'alma descansa.
— Que perfeita intimidade!...
Francisco Bugalho, in "Paisagem"
Na paisagem do momento,
Trazes mais esta lembrança
De profundo isolamento.
Chuva, caindo em silêncio
Na tarde, sem claridade...
A meu sonhar d'hoje, vence-o
Uma infinita saudade.
Chuva, caindo tão mansa,
Em branda serenidade.
Hoje minh'alma descansa.
— Que perfeita intimidade!...
Francisco Bugalho, in "Paisagem"
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