domingo, 30 de dezembro de 2012

Libelo Acusatório





Sociedade maldita, envenenada
Na bílis de asquerosos Preconceitos,
Detêm-te na carreira, ó desgraçada,
E segue outros caminhos mais direitos!

Já na Banda Oriental outra Alvorada
Vai assomando aos velhos parapeitos!
Corre, vem depressa, ó Luz amada,
Corrigir infamíssimos defeitos!

Legiões de famintos sem trabalho!
Virgens transpondo as portas do serralho,
Vendendo a carne, em flor, ao Capital!

Miséria! Fome! Lama! Escravidão!
Habitações sem Luz! Bocas sem pão!
Tuberculose, afia o teu punhal!

Adão de Figueiredo

terça-feira, 4 de dezembro de 2012





Baby





“Now my life is sweet like cinnamon 
like a Fuckin dream im living in 
baby luv me cause i'm playin on the radio 

Lick me up and take me like a vitamin 
Cause my body's sweet like sugar venom o yeah 
bay luv me cause i'm playin on the radio.” 

Lana del Rey 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

“A Pequena Angústia”





                                             
«O que Portugal
poderia ser
se todos os portugueses emigrassem…
- Pé de gazela
na lua.
Um desejo adusto fora d´uso.
Um lírio.

Seria livre.
Ilimitado,
como nuvem humilde
quando se dissolve.

O que Portugal
poderia ser
se todos os portugueses regressassem…

A pergunta tenta como osso
debaixo da carne.» 

Ruy Cinatti






Mentalizar o mal é perigoso





Quando o homem não mentaliza o mal,
O mal não lhe acontece.
Deixa o mal no berço da maldade,
E o mal não desgraça o homem.
Ainda que o sábio conheça o seu sabor,
Não exibe valores.
Ainda que conheça a sua dignidade,
Não exibe valores.
Ainda que conheça a sua dignidades.
Ele conhece as suas possibilidades,
Por isso não exorbita dos seus limites.

In Tao Te King 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

"Um sítio onde pousar a cabeça"







"A poesia não serve para coisa nenhuma. Às vezes serve para alimentar egos, para fazer uns engates... mas a poesia é inútil. Pelo menos como eu a entendo. É gratuita. Não se compra, não se vende - embora haja muita gente a vender-se através da poesia. De qualquer modo, por algum motivo, os homens escrevem poesia, desde sempre escreveram poesia, apesar de tudo isto. E apesar de a poesia ser uma igreja com muito poucos fiéis".

 Manuel António Pina,

Better off without a wife







Esquece o melhor que puderes.
Há drogas e cinemas (por
enquanto). Não vais ser tu a aprisionar
os gestos felizes ou sem rumo
de que ainda sou capaz.
Não é nada de pessoal, garanto-te.

Bebi sempre de mais, acordo
tarde e as crianças estão longe de ser
o meu animal doméstico preferido.
Detesto horários, famílias e obrigações.
Até a partilha dos lençóis,
quando não é o amor a rasgá-los.

Os dias, porém, depressa
nos obrigam ao esterco das rotinas,
ao desejo inútil de procurar
a morte noutros braços.

Mas não. Não vou mudar de marca
de cigarros nem de pasta
dentífrica. Acordo logo que puder,
já sabes. Telefono-te rouco,
eventualmente triste, a precisar
de alguma liberdade para poder provar,
sozinho, que a liberdade não existe
mas dá bastante jeito.

E no entanto, depois disto tudo,
é altamente provável que eu te queira
amar. Como não sei melhor, como sei.

Manuel de Freitas

quarta-feira, 17 de outubro de 2012


" The road not taken "





Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I marked the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I -
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

  Frost, Robert. 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012


Um canhão pelo cu




Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.
Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.
Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.
Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.
A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.
Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.
Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.
A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.
A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.
Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.
Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.
Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.
Juan José Millás

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Conto as tuas feridas





conto as tuas feridas
às vezes nem sempre é fácil
ouvir o corpo em civil adolescência

em cada instante que passa
sinto que o amor viaja em comboios ultra rápidos

de que cor era aquela estação?

M. Parissy

segunda-feira, 1 de outubro de 2012


Nirvana






Bleach, Nevermind, In Utero,
Incesticide. Os Nirvana haviam sido
um estado de alma. Uma imprudência
feliz da juventude, cantada como desejo
e assim mantida na memória.

Ouvimo-los de novo no trajecto
flutuante: Cacilhas – Cais do Sodré.

Acabaríamos o curso no ano seguinte
e como calculávamos: juntos
e infelizes para sempre. A certeza,
entre outras inauditas, separou-nos.

Num espaço menos devastador – afinal,
sem ti – recuperei outras músicas,
alguma compreensão do mundo.

Artur Aleixo

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

quarta-feira, 19 de setembro de 2012



Há colares que são coleiras







há colares que são coleiras
há mulheres que são cadelas
certos homens, cães raivosos

os cães propriamente ditos
não foram para aqui chamados
embora metam o nariz em todo o lado
farejando coisas imaginárias
e, de resto, não falam, ladram
têm com certeza razão

Bénédicte Houart

terça-feira, 11 de setembro de 2012

"As pessoas sensíveis"







As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
" Com o suor dos outros ganharás o pão."

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

Sophia de Mello Breyner Andresen 

sexta-feira, 7 de setembro de 2012


À Espera dos Bárbaros






" À Espera dos Bárbaros "

- Que esperamos na ágora congregados?

    Os bárbaros hão-de chegar hoje.

- Porquê tanta inactividade no Senado?
  Porque estão lá os Senadores e não legislam?

    Porque os bárbaros chegarão hoje.
    Que leis irão fazer já os Senadores?
    Os bárbaros quando vierem legislarão.

- Porque se levantou tão cedo o nosso imperador,
  e está sentado à maior porta da cidade
  no seu trono, solene, de coroa?

    Porque os bárbaros chegarão hoje.
    E o imperador espera para receber
    o seu chefe. Até preparou
    para lhe dar um pergaminho. Aí
    escreveu-lhe muitos títulos e nomes.

- Porque os nossos dois cônsules e os pretores
  saíram hoje com as suas togas vermelhas, as bordadas;
  porque levaram pulseiras com tantas ametistas,
  e anéis com esmeraldas esplêndidas, brilhantes;
  porque terão pegado hoje em báculos preciosos
  com pratas e adornos de ouro extraordinariamente cinzelados?

    Porque os bárbaros chegarão hoje;
    e tais coisas deslumbram os bárbaros.

- E porque não vêm os valiosos oradores como sempre
   para fazerem os seus discursos, dizerem das suas coisas?

    Porque os bárbaros chegarão hoje;
    e eles aborrecem-se com eloquências e orações políticas.

- Porque terá começado de repente este desassossego
  e confusão. (Como se tornaram sérios os rostos.)
  Porque se esvaziam rapidamente as ruas e as praças,
  e todos regressam às suas casas muito pensativos?

   Porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.
   E chegaram alguns das fronteiras,
   e disseram que já não há bárbaros.

E agora que vai ser de nós sem bárbaros.
Esta gente era alguma solução.

  Kavafis, Konstandinos

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Apple


Barreira invisível





É difícil caminhar sobre uma linha invisível,
uma linha de água, entre o mal e o mal.
Divididos pelo sangue que atravessa os pensamentos,
do inferno ao paraíso, com o medo entrelaçado
na memória, os bolsos pesarosos de metal ferroso,
caminha sobre as águas quem caminha sobre si.
Por isso é tão difícil caminhar sobre as águas.

José Miguel Silva

domingo, 26 de agosto de 2012


" Miragem "





Somos ficção
Simulamos o invisível
e a imagem

no reflexo
do espelho - ali nada há
como nada somos

Onde encontrar
a verdade
ou a real essência

desses fantoches
de nós mesmos
se os mistérios

não estão em lugar
mas no que mais fundo
escondemos?

  Bresciani, Alberto.